
livro sobre a obra do modernista Oswald de Andrade
"Ele levava o jornalismo para a literatura e vice-versa. Diagramava o poema e ao diagramar a página do jornal achava que deveria ter um conteúdo estético"
Polêmico, irreverente, de humor ácido e irônico. Esses são alguns traços da personalidade de um dos mais importantes escritores modernistas, que trabalhou muito no sentido de desconstruir conceitos sobre a poesia numa época em que o padrão era seguir normas de rima e métrica. Uma de suas maiores causas, sem dúvida, foi a valorização da arte nacional.
Foi ele, aliás, que identificou no brasileiro a capacidade de assimilar outras culturas e agregar à sua, gerando um novo produto, o que divulgou no conhecido Manifesto Antropófago, que acabou virando um movimento. Apaixonado por mulheres, chegou a se casar com oito. Entre elas, Tarsila do Amaral e Patrícia Galvão, a Pagu.
Conforme pesquisas realizadas pela escritora, professora e semioticista Míriam Cristina Carlos Silva, até com Isadora Duncan ele teve um rápido affair. Assim foi Oswald de Andrade, o escritor e jornalista cujas várias facetas acabam de ser registradas no livro Comunicação e Cultura Antropofágicas Mídia, Corpo e Paisagem na Erótico-Poética Oswaldiana, que será lançado hoje, a partir das 19h, na Fundec.
Resultado de pesquisa para tese de doutoramento da escritora, que tem como orientador Amalio Pinheiro, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo, o livro faz uma análise da produção de Oswald, em suas mais variadas áreas de atuação, enfatizando principalmente a poesia e o jornalismo.
Conforme Míriam, Oswald de Andrade foi subvalorizado, não apenas por sua personalidade polêmica, mas também pela poesia contrária ao academicismo e à erudição.
Seu interesse pela obra de Oswald surgiu no início da década de 90, há quase 20 anos, graças ao professor Amalio Pinheiro, que levou a obra do escritor para ser discutida em sala de aula. Nessa época, Míriam ainda estudava Letras e ficou encantada por ter descoberto um universo pouco abordado sobre a produção oswaldiana. Passei a enxergar coisas que interessaram muito, como a relação de Oswald com a comunicação. Ele levava o jornalismo para a literatura e vice-versa. Diagramava o poema e ao diagramar a página do jornal achava que deveria ter um conteúdo estético, afirma.
Conforme ela, os textos de Oswald de Andrade exigem uma sensibilidade maior por parte do receptor. O leitor tem de remontar a estrutura poética junto com o autor. São poemas que contam com os sentidos, que exigem uma percepção mais aguçada. É preciso ouvir melhor, enxergar melhor, para conseguir entender o que se passa nos poemas.
O corpo, observa Míriam, é um elemento recorrente em sua obra. Ele explora muito a boca, a oralidade, o riso, o humor. Mas também gosta de abordar a culinária. Sua obra tem elementos-chave para entendermos nossa própria cultura, explica.
A descrição quase fotográfica ao se referir à paisagem brasileira é também uma das características da obra de Oswald, por isso foi chamado pelo poeta concretista Décio Pignatari de câmera-eye, por transmitir com seu texto uma impressão fotográfica ao leitor. A cada nova leitura é possível descobrir coisas. A obra de Oswald não se esgota. Ítalo Calvino mesmo afirma que Oswald é clássico apesar de ser moderno, clássico no sentido de eterno, que não morre no tempo.
Erotismo
A obra de Oswald de Andrade, de acordo com Míriam Cristina, é marcada pelo humor e pela alegria. Ele resume isso na frase do manifesto: alegria é a prova dos nove, o que importa na vida é o que você pode tirar de prazer e de alegria. Então é possível observar nele essa necessidade de encarar tudo com bom humor. Outro ponto destacado pela escritora é que vida e poesia não se dissociam quando se trata de Oswald. Há que se viver poeticamente e a poesia está em todas as coisas, ele dizia. Então Oswald conduz seu leitor a um outro olhar, um olhar primeiro, que valoriza os elementos mais simples. Quanto mais puder se despir dos conceitos e preconceitos, melhor. A poesia é a descoberta das coisas que nunca se vê. Olhar com olhos de criança que está descobrindo o mundo. Isso nos faz apaixonados e alegres.
Míriam ainda esclarece que a poesia de Oswald não é fácil, embora seja apresentada com uma linguagem coloquial. Para compreender sua obra é preciso se despir do poético, daquele belo cheio de florzinha, sabe? As pessoas não estão preparadas para a simplicidade da poesia que ele faz. Sua obra é a poesia do simples e por incrível que pareça o simples não é fácil. Como exemplo ela cita o pequeno poema AMOR/HUMOR, onde o Amor é o título e Humor o verso. Somente com esse texto Oswald convida a muitas reflexões: que o amor deve ser levado com humor, que o amor é uma piada, uma ironia, e vai mais além, englobando os humores corporais, como suor, saliva....
Por falar em suor e saliva, o erotismo também é muito marcante em sua obra. Não se trata apenas da presença da sensualidade, mas da exploração, da hiperbolização dos sentidos. A maneira que ele coloca isso no texto, com sonoridades e repetição de letras, diz.
Oswald também gosta de brincar com a publicidade, usando em seus poemas técnicas específicas dessa área. Pode-se notar em sua obra o ‘compre e ‘beba da publicidade e isso no texto ganha uma força comunicativa muito grande, destaca Míriam.
Outra característica da obra oswaldiana é o desfecho completamente inesperado. Ele desconstrói conceitos da poesia e não realiza o que o leitor espera, surpreende-o no final.
Entre as curiosidades, por seu jeito irreverente Oswald virou alvo do anedotário popular, com as pessoas fazendo piadas sobre ele, dizendo até mesmo que tinha um filho chamado Rolo de lança-perfume, fato que Míriam encontrou publicado em livro da autora Maria Augusta Fonseca.
Durante sua pesquisa, a autora também descobriu uma autobiografia inacabada de Oswald, onde consta que sofreu muita influência da mãe. O título, bem típico dele: Um Homem Sem Profissão sob as ordens de Mamãe.
E nem é preciso deixar registrado que o poeta antropofágico sofreu sim as suas influências. Entre elas a do dadaísmo.
Míriam Cristina Carlos Silva é doutora em Comunicação e Semiótica pela PUCSP, roteirista, produtora cultural e professora do Programa de Mestrado em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba Uniso. Desenvolve pesquisa sobre Comunicação Visual Urbana com o apoio da Fapesp.
Fonte:http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia.phl?editoria=42&id=132476