Notícia publicada na edição de 04/12/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 2 do caderno A
* Jéssica Bastida Raszl e Míriam Cristina Carlos Silva
O
ritmo se popularizou em meados de 1920, após a gravação em vinil de
""Pelo Telefone"", composta por Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos,
compositor e violonista) e Mauro de Almeida
O Dia Nacional do
Samba, comemorado em 2 de dezembro, foi instituído em várias cidades do
Brasil, inicialmente em 1940 em Salvador, mas se tornou nacional em
1963. Esse dia foi marcado por ser a data em que Ary Barroso visitou a
capital baiana pela primeira vez. Compositor de clássicos como
""Aquarela do Brasil"" e ""Na Baixa do Sapateiro"", ele nunca havia
visitado a Bahia. Logo após isso, a festa se espalhou pelo País e se
tornou uma comemoração nacional. O samba, música composta por frases
curtas, surge no Brasil como gênero musical por volta da segunda metade
do século 19, a partir de influências africanas.
Em São Paulo,
os primeiros sambas de que se tem notícia nasceram quando da importação
de escravos do nordeste brasileiro para trabalhar nas lavouras de café,
no século XVIII, e, posteriormente, no bairro da Barra Funda, onde
muitos negros trabalhavam como carregadores de café na linha do trem,
sendo essenciais para o nascimento do samba paulista.
O ritmo
se popularizou em meados de 1920, após a gravação em vinil de ""Pelo
Telefone"", composta por Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos,
compositor e violonista) e Mauro de Almeida, sendo um marco dentro da
história do samba por ser considerada a primeira composição a alcançar
sucesso com a marca de samba, cooperando para a popularização do gênero.
A música foi concebida em um conhecido terreiro de candomblé daqueles
tempos, a famosa casa da Tia Ciata - frequentada por grandes sambistas e
músicos da época.
Ora descriminalizado e tido como
manifestação negativa, pode ser reconhecido como comunicação
transformadora da época, que permitia, através das suas letras, que os
seguidores e apreciadores dessa melodia pudessem conhecer um pouco mais
da história do Brasil ao mostrar a diversidade cultural existente no
País. Nesse aspecto, o papel da imprensa no século 20 (de 1917 a 1950)
foi essencial ao desmitificar o gênero musical e os sambistas, já que o
ritmo era inicialmente criminalizado e visto com preconceito.
O
jornalista Sérgio Cabral conta, em depoimento registrado no DVD
comemorativo dos 40 anos de carreira de Beth Carvalho, uma história que
ilustra a relação entre a polícia e os pioneiros do samba, e que foi
contada por Donga. O sambista relatou que o samba ""era proibido porque a
gente ia pra Penha, e na hora que a gente ia com o pandeiro e o violão,
a polícia cercava e tomava o pandeiro; porque quem cantava samba era
capadócio"". Em outro momento diz que toda vez que um homem, geralmente
negro, era detido pela polícia por vadiagem, uma das primeiras
providências a serem tomadas era a de verificar a existência de calos
nas pontas dos dedos. Em caso afirmativo, concluía-se que o preso tocava
violão, caracterizando-o como sambista e, como consequência, era preso -
o que nas palavras de Donga ""era pior do que ser comunista"".
No Rio de Janeiro, a imprensa coagia compositores a abdicarem a
temática da malandragem nos seus sambas, na base da censura. Tal fato é
enfatizado em dezembro de 1939, com a criação pelo governo, do
Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que tinha como principal
objetivo difundir a ideologia do Estado Novo junto à população, além de
procurar impedir que as injustiças sociais fossem denunciadas por meio
das letras dos sambas. Só em 1940, o DIP vetou mais de 300 letras de
músicas e, em 1941, proibiu a divulgação do samba ""O Bonde de São
Januário"", de Ataulfo Alves e Wilson Batista, por considerar uma
exaltação à malandragem.
Hoje, pesquisadores, acadêmicos,
jornalistas e historiadores em uma junção de histórias e acontecimentos
da época, buscam explicar como esse ritmo se transformou em cultura
popular e nacional. Poucos sambistas, hoje, propagam o ritmo como ele é
desde o seu surgimento. A tecnologia permitiu que muitos dos primeiros
sambas fossem remasterizados e regravados por artistas que persistem em
não deixar o samba de raiz cair no esquecimento, deixando que sua batida
original não se deixe levar por acontecimentos culturais relâmpagos e
ritmos midiáticos.
* Professora Especialista Jéssica Bastida
Raszl e Professora Doutora Míriam Cristina Carlos Silva, do Programa de
Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Uniso. (jessica.raszl@prof.uniso.br)
http://www.cruzeirodosul.inf.br/acessarmateria.jsf?id=438489
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