6 de abr. de 2013

Em alerta contínuo

Gazeta de Votorantim 06/04/2013

Míriam Cris Carlos*



As novas tecnologias, já não tão novas, mas em constante evolução, não somente, mas principalmente elas, parecem ser um sintoma e também a causa destes tempos confusos que vivemos, nós, habitantes das cidades.
Estamos acometidos por um estado de constante atenção. Não nos desligamos. Há inúmeros mecanismos para fazer permanentes os estados de alerta: o som que avisa sobre um novo email, em qualquer dispositivo com conexão à rede; o celular que toca a qualquer instante e em qualquer lugar; a notícia em tempo real. Estamos completamente imbuídos de um imediatismo e de uma rapidez que nos angustia, pois não conseguimos assimilar metade sequer de todas as informações que nos chegam, e a qualquer momento haverá uma nova informação para ser entendida ou um novo email que requer resposta imediata.
Já conheci pessoas cuja angústia era tão tremenda, absurda e hiperbólica, que, chegavam ao ponto de me enviar um email e na sequencia um torpedo; por último, acabavam por me telefonar para avisar que já havia meia hora que me haviam mandado uma mensagem e que eu ainda não havia respondido. Aliás, o email começa a perder espaço para as mensagens instantâneas do Facebook e de outras mídias sociais, mais imediatas e interativas.
O fato é que este mergulho na imediaticidade parece nos empurrar a todos para um futuro em devir, algo que nos angustia porque está para acontecer a qualquer momento. Isto quer dizer que estamos ao mesmo tempo em muitos lugares, com muitas pessoas, mas em lugar nenhum e com ninguém. Em busca da próxima novidade, da próxima “curtida”, do próximo comentário, deixamos o presente escorregar, líquido e fugidio, pelas nossas mãos.
Por isso, não deixa de ser um conforto saber que este sintoma acomete, ainda, sobretudo as grandes cidades. Basta caminhar por um lugarejo do interior de São Paulo
para se perceber que o mergulho real no agora ainda é possível. São cadeiras na calçada acompanhadas de conversas sem nenhuma pressa. Festas comunitárias das quais todos participam. Ritos que ainda mobilizam a necessidade de encontro, de transcendência e de troca entre corpos, vozes, olhares e gestos ao vivo.
Cabe aprender um pouco com as pequenas cidades, as vilas, os bairros afastados, para nos lembrar que as tecnologias são úteis quando nos libertam, não quando nos aprisionam (como já mencionou o filósofo Vilém Flusser). Portanto, importante saber quando é a hora de desligar, pois quando os laços comunitários são realmente fortes, com ou sem tecnologia, e apesar dela, haverá tempo para mergulhar e comungar no hoje, único tempo possível de ser realmente vivido.

*Professora e pesquisadora do Mestrado em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba, UNISO, http:micriscarlos.blogspot.com.br

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