JC Net - Bauru e grande região
Mariana Gasparini
http://www.jcnet.com.br/Cultura/2014/06/entre-palavras-e-sons.html
A cantora Marcia Mah, de Sorocaba, e seu grupo, o Ybicorok, buscam resgatar os resquícios de uma cultura esquecida através da música
Zé Marcos, Marcia Mah e Luís Anthony, trio
de estilo eclético: repertório vai do samba ao tropeiro, da bossa-nova
ao baião e da moda de viola à MPB
“Cochichando comigo mesmo/Orvalhando em meu penar/Te peço, minha
senhora/Abre no sertão de minha vida/Veredas de contar estórias”. O
trecho é da música “Sertanias”, da talentosa cantora Márcia Mah,
inspirada na obra de “Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Só com
este exemplo já dá para saber do que esta sorocabana é capaz.
Com 20 anos de estrada, Márcia é daquelas que buscam saber a história e
a cultura brasileira, principalmente a regional. Ela e seu grupo
Ybiçorok – que quer dizer Sorocaba em tupi-guarani – se preocupam em dar
continuidade à cultura e, mais do que isso, disseminá-la. Eles,
inclusive, estiveram no Sesc/Bauru, no início deste mês, com o show
“Márcia Mah canta Caymmi”.
“Temos vários projetos. Uns mais voltados para arte-educação e outros
em que homenageamos, através de arranjos e composições próprias, um
artista ou um estilo musical”, explica a cantora. Mas, segundo ela,
todos com o objetivo de contextualizar a história e a cultura brasileira
em forma de sons e letras.
Pluralidade
Do samba ao tropeiro, da bossa-nova ao baião, da moda de viola à MPB.
Não faltam estilos musicais que ainda não tenham passado pela voz e pelo
som deste grupo. Além de Márcia, o Ybiçorok é composto por Zé Marcos e
Luís Anthony – que também são plurais quando o assunto é instrumento.
Tocam de violoncelo ao bandolim. “Mudamos de ritmo o tempo todo e isso
exige uma preparação maior, mas este é justamente o lado bom. Você
conhece vários ritmos e várias histórias. É um desafio”, pontua Zé
Marcos.
Ideias
Com a vasta cultura que o Brasil tem, ideias é o que não faltam para
este trio. Já trabalharam com base na “Semana de 22”, nas músicas de
Dorival Caymmi, folclore, meio ambiente, entre outros. “A música
brasileira tem uma profundidade incrível e grande importância no
desenvolver da humanidade. A música é o gancho para você conhecer a
história”, diz a sorocabana.
Márcia também explica que o próprio dia a dia a inspira para um novo
projeto, como no seu último trabalho relacionado ao interior. “Li um
livro sobre os tropeiros que me encantou. Estudando e pesquisando, vi
que Sorocaba foi uma cidade que se destacou pelas atividades deles”,
conta.
A partir daí, criou um projeto que reconta esta parte tão importante da
história, mas que foi se perdendo no tempo. “Quando passamos a conhecer
coisas que antes eram desconhecidas, nos sentimos endividados se não
levarmos a história adiante”, fala Luís Anthony.
Ancestralidade regional
Na opinião do grupo, a música regional não é muito valorizada na
cultura de hoje, principalmente entre as crianças. “Em nossas
apresentações, principalmente em cidades menos interioranas, vemos
crianças que sequer sabem o que é um cavalo. Isso mostra como o contato
com nossa própria história está falho”, opina a cantora, que lançou seu
terceiro CD: “Lá lá iá”.
E é justamente este panorama que eles pretendem mudar. “Queremos levar
história, música e cultura às pessoas. E, apesar de ser um trabalho
árduo e sem muita visibilidade, nós fazemos aquilo que faz sentido para
nós como artistas. E isto é o mais importante”, finaliza.
Trajetória mambembe
Uma trajetória mambembe, que começou de maneira simples e evoluiu de
forma natural. Celebrando 20 anos de carreira, a sorocabana Marcia Mah
reconhece que o início um tanto tardio – ela começou a estudar música
aos 26 anos – lhe roubou “algumas horas” de sua formação, mas por outro
lado, trouxe vivências que contribuíram para o processo de criação,
ajudando-a a driblar dificuldades, o que, segundo ela, é sempre um
“grande barato”.
Bastante versátil, Marcia é em música. Por seis anos, ela frequentou o
Curso Técnico de Canto Lírico. Outros quatro foram dedicados ao curso de
MPB/Jazz do Conservatório de Tatuí. Ao longo de sua trajetória, a
cantora se destaca pelo seu empenho em valorizar – ou por que não dizer,
resgatar – a cultura popular brasileira.
Marcia conta que gosta de preparar apresentações temáticas, de
compartilhar universos recortados pelo olhar, reordená-los no som. “Faço
isso por deleite. Sempre dialogo com o passado e o presente, unindo
autores consagrados, outros anônimos e músicas inéditas”, explica,
revelando a fórmula desta genuína receita brasileira.
Com formação acadêmica em Filosofia e frequentando aulas do mestrado de
Comunicação e Cultura com a semioticista, Miriam Cris Carlos, busca
sempre contextualizar as obras que interpreta em suas pesquisas de
repertório. Como o mais recente trabalho em torno da estética
antropofágica de Oswald de Andrade aplicada a construção da música
brasileira.
São frentes de atuação que em geral não fazem parte da grande mídia.
Nesse contexto, ela acredita que a Internet tem exercido um papel
importante, ao facilitar a divulgação da produção independente. “É uma
ferramenta incrível”, frisa. Ainda sim, a artista defende que nada
supera o contato pessoal, a preparação de um show, a energia ao vivo da
plateia. Deve servir sim, para tirar o sujeito da sua sala e levá-lo
para a sala de espetáculo.

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