25 de jun. de 2014

Entre palavras e sons

Bauru e grande região



A cantora Marcia Mah, de Sorocaba, e seu grupo, o Ybicorok, buscam resgatar os resquícios de uma cultura esquecida através da música


Zé Marcos, Marcia Mah e Luís Anthony, trio de estilo eclético: repertório vai do samba ao tropeiro, da bossa-nova ao baião e da moda de viola à MPB
“Cochichando comigo mesmo/Orvalhando em meu penar/Te peço, minha senhora/Abre no sertão de minha vida/Veredas de contar estórias”. O trecho é da música “Sertanias”, da talentosa cantora Márcia Mah, inspirada na obra de “Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Só com este exemplo já dá para saber do que esta sorocabana é capaz.
Com 20 anos de estrada, Márcia é daquelas que buscam saber a história e a cultura brasileira, principalmente a regional. Ela e seu grupo Ybiçorok – que quer dizer Sorocaba em tupi-guarani – se preocupam em dar continuidade à cultura e, mais do que isso, disseminá-la. Eles, inclusive, estiveram no Sesc/Bauru, no início deste mês, com o show “Márcia Mah canta Caymmi”.
“Temos vários projetos. Uns mais voltados para arte-educação e outros em que homenageamos, através de arranjos e composições próprias, um artista ou um estilo musical”, explica a cantora. Mas, segundo ela, todos com o objetivo de contextualizar a história e a cultura brasileira em forma de sons e letras.
Pluralidade
Do samba ao tropeiro, da bossa-nova ao baião, da moda de viola à MPB. Não faltam estilos musicais que ainda não tenham passado pela voz e pelo som deste grupo. Além de Márcia, o Ybiçorok é composto por Zé Marcos e Luís Anthony – que também são plurais quando o assunto é instrumento. Tocam de violoncelo ao bandolim. “Mudamos de ritmo o tempo todo e isso exige uma preparação maior, mas este é justamente o lado bom. Você conhece vários ritmos e várias histórias. É um desafio”, pontua Zé Marcos.
Ideias
Com a vasta cultura que o Brasil tem, ideias é o que não faltam para este trio. Já trabalharam com base na “Semana de 22”, nas músicas de Dorival Caymmi, folclore, meio ambiente, entre outros. “A música brasileira tem uma profundidade incrível e grande importância no desenvolver da humanidade. A música é o gancho para você conhecer a história”, diz a sorocabana.
Márcia também explica que o próprio dia a dia a inspira para um novo projeto, como no seu último trabalho relacionado ao interior. “Li um livro sobre os tropeiros que me encantou. Estudando e pesquisando, vi que Sorocaba foi uma cidade que se destacou pelas atividades deles”, conta.
A partir daí, criou um projeto que reconta esta parte tão importante da história, mas que foi se perdendo no tempo. “Quando passamos a conhecer coisas que antes eram desconhecidas, nos sentimos endividados se não levarmos a história adiante”, fala Luís Anthony.

Ancestralidade regional
Na opinião do grupo, a música regional não é muito valorizada na cultura de hoje, principalmente entre as crianças. “Em nossas apresentações, principalmente em cidades menos interioranas, vemos crianças que sequer sabem o que é um cavalo. Isso mostra como o contato com nossa própria história está falho”, opina a cantora, que lançou seu terceiro CD: “Lá lá iá”.
E é justamente este panorama que eles pretendem mudar. “Queremos levar história, música e cultura às pessoas. E, apesar de ser um trabalho árduo e sem muita visibilidade, nós fazemos aquilo que faz sentido para nós como artistas. E isto é o mais importante”, finaliza.

Trajetória mambembe
Uma trajetória mambembe, que começou de maneira simples e evoluiu de forma natural. Celebrando 20 anos de carreira, a sorocabana Marcia Mah reconhece que o início um tanto tardio – ela começou a estudar música aos 26 anos – lhe roubou “algumas horas” de sua formação, mas por outro lado, trouxe vivências que contribuíram para o processo de criação, ajudando-a a driblar dificuldades, o que, segundo ela, é sempre um “grande barato”.
Bastante versátil, Marcia é em música. Por seis anos, ela frequentou o Curso Técnico de Canto Lírico. Outros quatro foram dedicados ao curso de MPB/Jazz do Conservatório de Tatuí. Ao longo de sua trajetória, a cantora se destaca pelo seu empenho em valorizar – ou por que não dizer, resgatar – a cultura popular brasileira.
Marcia conta que gosta de preparar apresentações temáticas, de compartilhar universos recortados pelo olhar, reordená-los no som. “Faço isso por deleite. Sempre dialogo com o passado e o presente, unindo autores consagrados, outros anônimos e músicas inéditas”, explica, revelando a fórmula desta genuína receita brasileira.
Com formação acadêmica em Filosofia e frequentando aulas do mestrado de Comunicação e Cultura com a semioticista, Miriam Cris Carlos, busca sempre contextualizar as obras que interpreta em suas pesquisas de repertório. Como o mais recente trabalho em torno da estética antropofágica de Oswald de Andrade aplicada a construção da música brasileira.
São frentes de atuação que em geral não fazem parte da grande mídia. Nesse contexto, ela acredita que a Internet tem exercido um papel importante, ao facilitar a divulgação da produção independente. “É uma ferramenta incrível”, frisa. Ainda sim, a artista defende que nada supera o contato pessoal, a preparação de um show, a energia ao vivo da plateia. Deve servir sim, para tirar o sujeito da sua sala e levá-lo para a sala de espetáculo.

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