Míriam Cristina Carlos Silva,
Paulo Celso da Silva e
Thífani Postali
Mercado Central de Lima - ACERVO PESSOAL
As ideias que construímos sobre as coisas são formadas a partir dos contatos que temos como membros de uma sociedade específica, peculiar, e são tecidas no cruzamento entre objetividade, subjetividade e intersubjetividade. Logo, as noções sobre um povo podem ser constituídas com base na história, nas notícias relacionadas ao grupo, em matérias jornalísticas e em filmes, produções televisivas, materiais de agências de turismo e em elementos culturais e / ou artísticos tais como música, dança, pinturas, entre outros que, aproximados, sugerem as características de uma sociedade e suas possíveis representações.
Algumas vezes construímos paisagens que se assemelham ao local; em outras ocasiões, deparamo-nos com um contexto totalmente diferenciado do imaginado. Isso se deve ao fato de que o conjunto de imagens sobre uma determinada comunidade é composto por signos (representações parciais da realidade), que não dão conta de apreender o real em sua totalidade. São simulacros que revelam, dão relevo e negligenciam aspectos do real, sempre decodificados por uma mente interpretadora, que também possui os seus limites, preferências, cegueiras e preconceitos.
A cidade de Lima, capital do Peru, é como esses lugares inimagináveis por aqueles que nunca a visitaram ou que não pesquisaram a seu respeito. A noção dada pelo senso comum é a de um povo tribal, pobre e que ainda não passou pelos processos "civilizatórios" de globalização. E destaquem-se bem essas aspas em "civilizatórios", atentando-se para o alerta de Octavio Paz, quando discute o conceito de primeiro mundo, afirmando o desenvolvimento, a partir das premissas do capital e do mercado, como uma corrida para se verificar quem chegará mais rápido ao inferno. A fim de se investigar o caráter subjetivo de uma percepção sobre o país, que poderia ser apenas fruto de um limite e equívoco pessoais, questionou-se brasileiros, solicitando-se que definissem o Peru em poucas palavras, e o que se ouviu compõe um recorrente campo semântico de termos afins: lhama, índio, aldeia, sujeira, Machu Picchu, flautas e pobreza.
A questão é que Lima possui as mesmas características ditas "globais", encontradas em qualquer metrópole. O processo intitulado "americanização", que soa bastante irônico quando se constata que o Peru está na América, portanto, que poderia ser chamado de "estadunidização" ou algo semelhante, encontra-se tão presente quanto no Brasil, com algumas diferenças: enquanto em São Paulo (e em outras metrópoles) a rede Mac Donald"s lidera o cenário local, em Lima, quem domina é a rede KFC, fastfood de carne de frango. Uma das explicações possíveis para esse domínio pode estar relacionada à interferência da cultura alimentar do limenho, mais afeito ao consumo de frango e peixe do que de carne vermelha.
Todavia, como qualquer capital industrializada, apresenta essas influências exteriores, mas revela particularidades e paradoxos carregados de complexidade e beleza. Em meio a um ambiente aparentemente caótico, existe uma organização própria, que contraria o caos, estabelecendo uma outra ordem, inesperada. As leis de trânsito, por exemplo, não regularizam rigorosamente o avanço ao sinal vermelho, tampouco a parada dos carros sobre a faixa de pedestres; além disso, é frequente o fechamento parcial dos cruzamentos. Parcial, porque os motoristas sempre deixam uma brecha para que outros carros possam passar. E o convívio se faz entre ônibus, carros de todos os tempos, alguns muito velhos e maltratados e até tuk tuks. E existem táxis de todas as categorias: impraticáveis, muito velhos, velhos, conservados, novos em folha (com bancos de couro, etc). E curiosamente, quase não se vê colisões (apesar da sensação de que elas sempre "quase" vão acontecer), atropelamentos e outros acidentes. Nessa organização peculiar do trânsito em uma metrópole moderna, o uso constante da buzina ganha uma dimensão comunicativa distinta, pois é um indicativo insistente de se ESTAR presente nas ruas. Não parece, ao menos de primeira vista, que marcas de automóveis façam muita diferença no trânsito de Lima, como ocorre nas ruas brasileiras. Em Lima, mais do que Ter, importa Estar. E a sinfonia das buzinas, em todas as ruas e em todos os horários, confirmam essa máxima. A profissionalização do taxista também é um tanto diferente. Qualquer cidadão motorizado pode comprar os apetrechos para a identidade do táxi e, exercer a função. Por esse motivo, não se usa o taxímetro, tendo o usuário que negociar a corrida previamente com o motorista. Os preços, obviamente, variam conforme o carro, em uma comunicação dialógica, na qual perde o tímido ou o apressado. Negociar o preço é parte da cultura limenha. E por mais maltratados que sejam os veículos, curiosamente, fora poucas exceções, estão sempre limpos e perfumados por dentro.
Aquela imagem tribal que se fixa no imaginário comum, pode ser conferida nas diversas áreas oferecidas pela cidade, como as ruínas sagradas Huaca Pucllana e Huacca Huallamarca, de ocupação pré-colombiana, que apresentam tumbas e artefatos arqueológicos, e também onde se pode ser surpreendido por um cão Pelado (raça comum no Peru), de roupa, que observa as ruínas como um guardião do passado, indiferente às fotos tomadas com curiosidade. O Museo Larco exibe 4.000 anos de história pré-colombiana peruana, por meio de uma profusão de objetos que incluem uma sessão de arte erótica e a beleza de jardins que por si só já valem a visita. Saindo do Larco, pise na linha azul traçada no chão e será levado a outro museu.
No mais, Lima é repleta de áreas de lazer e convivência, possui regiões maravilhosas e bem cuidadas como as de Miraflores e San Isidro. Seu clima úmido e o céu acinzentado, no inverno, se não podem ser referências de beleza e conforto ambiental, tornam-se peculiares quando somados a tanta beleza e novidade. E o contraste berra quando se dirige ao Centro de Lima, na peculiar região do Mercado Central, que faz conviver barracas de ervas, carnes diversas, frutas, grãos: um espetáculo de cores, de texturas, de cheiros, de formas, de pessoas comuns e, especialmente, de práticas cotidianas, incluindo-se as de higiene, convívio e interação, que revelam o limenho em aspectos essenciais. Ali ocorre uma espécie de volta à Idade Média e à certeza de que, na América Latina, os tempos, as arquiteturas e as culturas convivem em amálgama e em camadas. Se em San Isidro, coração financeiro de Lima, pode-se cruzar com um Inca de terno, tomando uma "Inca-Kola" em um charmoso café, em qualquer esquina, no Mercado Central ele está em sua faceta mais visceralmente ligada à terra, às origens que se desnudam quando vende maca, chá de coca, cabritos ou perus, que quase alcançam o tamanho de um bezerro. Basta caminhar por alguns quarteirões e chega-se à Plaza de Armas, de onde se pode assistir ao espetáculo da troca da Guarda. E agora são Incas fardados de modo solene e festivo. O presidente Ollanta Humala aparece e acena. O povo grita: bravo! E aos poucos o quadrilátero repleto de turistas e populares, mulheres, homens, crianças, dispersa-se e revela uma limpeza e organização que contrasta duramente com o morro mais à frente, pintado de casebres coloridos e, com o entorno, o comércio popular, algo amedrontador e nervosamente movimentado.
Ponto alto de uma estada turística em Lima é o contato com as pessoas, sempre simpáticas, receptivas e prontas para ajudar a quem pede uma informação ou quer um detalhe sobre a cidade ou a cultura secular peruana. Quase todas perguntam se já se aproveitou a culinária local, a qual descrevem com entusiasmo e orgulho. Com justiça plena, Lima é chamada de a capital gastronômica da América Latina. Há restaurantes de todas as categorias. A culinária é destaque internacional, não apenas por seus pratos tradicionais como o Ceviche, mas por ter o Central, o restaurante número 1 da América Latina, localizado no distrito de Miraflores. Nele são servidos 17 pratos nomeados como 17 tempos, em referência às muitas altitudes e grande diversidade de flora, fauna e ambientes no país. O Rosa Náutica, em sua arquitetura peculiar, avança para o Pacífico e oferece gastronomia do mundo todo apreciada com o bater das ondas. E quando se trata de comida peruana, as opções são muitas: além do Ceviche, acompanhado de um Pisco, o Lomo Saltado, o impressionante e inusitado Pollo Bebe: tudo é cor, aroma, combinações acompanhadas de choclo e outros vegetais que colorem os pratos como em uma brincadeira de pintar.
Enfim, Lima é composta de inúmeras camadas, diversas, contraditórias e encantadoras. É preciso paciência, persistência e cuidado para apreendê-la um pouco, aos poucos e em partes. Lima, múltipla, não se revela por completo. Uma estratégia para fazer dela um lugar que merece muitas voltas, depois que se foi pela primeira vez.
Míriam, Paulo e Thífani são professores da Universidade de Sorocaba. Concordam em várias coisas, discordam em outras, mas acreditam que a beleza da cultura está no convívio do diverso. E que viajar é um bom modo de constatar sobre o quanto estamos (quase o tempo todo) enganados
http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia/571551/lima-uma-poetica-da-beleza-e-da-diversidade
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