13 de jan. de 2015

O fim anunciado do sono

Jornal Cruzeiro do Sul - 13/01/2014

Míriam Cristina Carlos Silva
Paulo Celso da Silva

O mundo do trabalho passou por diversas alterações em seus horários na história do capitalismo como modo de produção dominante. Das 12 ou 16 horas diárias que os operários labutavam nas empresas do início do século, aqui mesmo em Sorocaba e em outros lugares do mundo, muita gente lutou, sofreu e mesmo faleceu para que os futuros trabalhadores tivessem sua carga horária reduzida. Não foi um presidente ou um patrão quem "presenteou" os trabalhadores com a redução para oito horas diárias, como muita gente ainda afirma, ao contrário, devemos reforçar, foram muitos e muitos trabalhadores que lutaram para conquistar esse direito.

No século XX ainda vimos o início da flexibilização das horas trabalhadas, em alguns casos, redução da jornada, com e sem prejuízos financeiros, banco de horas, trabalho fora da empresa e uma infinidade de combinações às quais todos foram acostumando-se e incorporando, ao mesmo tempo em que também incorporavam novas tecnologias, palavras, atitudes e ações.

Não faz tanto tempo, o uso dos celulares empresariais por alguns empregados custou às empresas o pagamento de horas extras, tendo em vista que não havia horário fixo para atender às chamadas da empresa; com isso, a disponibilidade total era cobrada quando o funcionário deixava o local de trabalho. Do uso empresarial para o uso social mais generalizado foi um grande passo. Podemos dizer que ocorreu a passos largos, devido à rapidez com que o cotidiano foi invadido pelos aparelhos móveis, que ainda levam o nome de celulares apenas por costume, já que se configuram como estações multimídias móveis.

Mas existe um custo social: o 24/7. E isso quer dizer, vinte quatro horas por sete dias, ou seja, o dia todo durante toda semana de prontidão para atender, conectar, enviar, disponibilizar e apagar coisas e pessoas. Alguns mais desesperados acostumaram a levantar durante a madrugada, na esperança de ler uma mensagem nova, ou saber quantas e quais curtidas suas postagens de rede social tiveram. Ao mesmo tempo, estudos com pássaros notívagos, que voam durante 7 dias sem parar para dormir, são elaborados pelos militares estadunidenses em uma tentativa de descobrir qual é o mecanismo cerebral desses pássaros e como poderá ser alterado o mecanismo cerebral de um soldado para ficar tanto tempo sem dormir e sem sofrer danos neurológicos e/ou psicológicos. Do soldado para o trabalhador, a distância e o tempo de executar não serão grandes.

Estaríamos, de acordo com os mercados globais, já 24/7 desde muito tempo e que "sofrem" porque nosso organismo - ainda - recusa-se a ficar acordado por um tempo maior. Logo, para o mercado global 24/07, nenhum (ou quase nenhum) "valor pode ser extraído do sono". Essa é a uma das teses defendidas por Jonathan Crary no livro 24/07 Capitalismo Tardio e os fins do Sono (editora CosacNaify) .

Em que se pese o constante estado de alerta em que vivemos, o sono ainda seria a última fronteira a ser vencida pelo capital, rumo à acumulação contemporânea, e as mídias colocam-se como os veículos ideais para isso. O treinamento das novas gerações está em curso, via celulares, tablets conectados à internet e usados sem nenhuma reflexão. E Crary é enfático, não estamos passando de uma ordem social para outra ordem, como sugerem diversos autores. Estamos no meio de um processo que não tem prazo para acabar, nunca chegaremos no "finalmente este é o máximo de tecnologia". O importante mesmo é que acontece uma "redefinição da experiência e da percepção pelos ritmos, velocidades e formas de consumo acelerado e intensificado" (p. 48). Dessa forma, o seu celular ou tablet é mais um elemento em um imenso fluxo de produtos altamente descartáveis.

Quanto mais desperto, mais consumo. E tudo parece indicar que o motor da compra pelo último dos últimos aparatos móveis é, exatamente, saber que logo haverá o "mais último", compramos já imaginando e desejando o próximo.
Nesse ritmo alucinado a que nos propomos viver e com-viver com os demais, a liberdade para romper o circuito da acumulação capitalista desmesurada pode estar no sono, um resquício do ritmo natural e humano que nos liga a outros também humanos. Um intervalo para viver e recarregar energias, sinergias com sensações e percepções que ficam esquecidas durante o dia. Um momento de conectar com o próprio interior. Pelo menos enquanto se puder apertar um botão "off"...

Míriam Cristina Carlos Silva - Professora titular do Programa de Mestrado em Comunicação e Cultura da Uniso (miriam.silva@prof.uniso.br)
Paulo Celso da Silva - Professor titular do Programa de Mestrado em Comunicação e Cultura da Uniso (paulo.silva@prof.uniso.br)


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