17 de mar. de 2013

Alimento para acalentar a alma



Gazeta de Votorantim 16/03/2013

Míriam Cris Carlos*

A comida, mais que necessidade vital para fornecer energia e saúde, é peça fundamental da cultura. Não comemos apenas porque temos fome. Comemos e bebemos para partilhar, receber amigos, celebrar, jogar conversa fora. Não é raro encontrarmos casas nas quais a cozinha é o ambiente mais visitado e onde todos permanecem por mais tempo. Quando chega o fim de semana e desejamos um pouco de descontração, descanso e convívio, saímos para comer. E quando saímos para fazer outra coisa, esta é acompanhada por alimentos: o sorvete na praça, a pipoca no cinema, o cafezinho em qualquer canto.
A comida é responsável por estabelecer e fortalecer vínculos, além de trazer memórias. Não há como se esquecer do caldo grosso do feijão com louro preparado pela avó; o grão de bico no primeiro dia do ano; o macarrão comum, comprido, com furo no meio e muito molho de tomate, sugado com barulho pelas crianças; a pipoca caramelizada, feita no fogão, pelo avô.
Há receitas que se perdem no tempo e morrem com quem as preparava, como o bolo salgado de farinha de milho e leite azedo, que a avó tentava reproduzir de memória, mas que quem fazia bem mesmo era a bisavó.
Quantos adjetivos se podem relacionar à comida! Industrial, caseira, de rua, de boteco, de padaria. Simples e bem servida, em porções generosas. Sofisticada e em porções minúsculas, mais para se olhar do que para se comer.
Para quem é bom de garfo, a associação dos lugares aos pratos é imediata: pastel de Belém de Lisboa; paella espanhola; frutos do mar chilenos; farofa de banana do Mato Grosso; arroz com pequi de Goiás; geléia de pimenta de São Luís do Maranhão; acarajé da Bahia; torresmo mineiro; virado à paulista; churrasco gaúcho.
E em Votorantim? Quais são os pratos, sabores, cozinheiras, comida de bar ou de boteco, quituteira, boleira? Se me perguntarem sobre minha experiência gastronômica na cidade, sem pestanejar, responderei: "os pães da mãe do Pedrão e do Gerson". Mas sei que em cada cozinha haverá algo mais a ser contado - e provado - como marca de afeto e cultura que compõe o ser que somos, individual e coletivamente.
O que espanta e revolta é saber que há aqueles que nem sequer têm a certeza de que comerão um pedaço de pão por dia. Além de excluídos da mínima dignidade para sobreviver, estão excluídos da cultura, na qual o alimento é também para acalentar a alma.


*Professora e pesquisadora do Mestrado em Comunicação e Cultura da UNISO

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