Gazeta de Votorantim 16/03/2013
Míriam Cris Carlos*
A comida, mais que
necessidade vital para fornecer energia e saúde, é peça fundamental da cultura.
Não comemos apenas porque temos fome. Comemos e bebemos para partilhar, receber
amigos, celebrar, jogar conversa fora. Não é raro encontrarmos casas nas quais
a cozinha é o ambiente mais visitado e onde todos permanecem por mais tempo. Quando
chega o fim de semana e desejamos um pouco de descontração, descanso e
convívio, saímos para comer. E quando saímos para fazer outra coisa, esta é
acompanhada por alimentos: o sorvete na praça, a pipoca no cinema, o cafezinho
em qualquer canto.
A comida é responsável
por estabelecer e fortalecer vínculos, além de trazer memórias. Não há como se
esquecer do caldo grosso do feijão com louro preparado pela avó; o grão de bico
no primeiro dia do ano; o macarrão comum, comprido, com furo no meio e muito
molho de tomate, sugado com barulho pelas crianças; a pipoca caramelizada,
feita no fogão, pelo avô.
Há receitas que se perdem
no tempo e morrem com quem as preparava, como o bolo salgado de farinha de
milho e leite azedo, que a avó tentava reproduzir de memória, mas que quem
fazia bem mesmo era a bisavó.
Quantos adjetivos se
podem relacionar à comida! Industrial, caseira, de rua, de boteco, de padaria.
Simples e bem servida, em porções generosas. Sofisticada e em porções
minúsculas, mais para se olhar do que para se comer.
Para quem é bom de
garfo, a associação dos lugares aos pratos é imediata: pastel de Belém de
Lisboa; paella espanhola; frutos do mar chilenos; farofa de banana do Mato
Grosso; arroz com pequi de Goiás; geléia de pimenta de São Luís do Maranhão;
acarajé da Bahia; torresmo mineiro; virado à paulista; churrasco gaúcho.
E em Votorantim? Quais são
os pratos, sabores, cozinheiras, comida de bar ou de boteco, quituteira, boleira?
Se me perguntarem sobre minha experiência gastronômica na cidade, sem
pestanejar, responderei: "os pães da mãe do Pedrão e do Gerson". Mas
sei que em cada cozinha haverá algo mais a ser contado - e provado - como marca
de afeto e cultura que compõe o ser que somos, individual e coletivamente.
O que espanta e revolta
é saber que há aqueles que nem sequer têm a certeza de que comerão um pedaço de
pão por dia. Além de excluídos da mínima dignidade para sobreviver, estão
excluídos da cultura, na qual o alimento é também para acalentar a alma.
*Professora
e pesquisadora do Mestrado em Comunicação e Cultura da UNISO
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